Longe de Rueil, de Camille Entratice

A fotografia, segundo a norte-americana Daine Arbus, “é um segredo sobre um segredo”, pois não consegue revelar a cena de maneira integral. Em Longe de Rueil, a fotógrafa franco-brasileira Camille Entratice confirma as idéias de uma de suas maiores referências artísticas. A exposição, que inaugura no próximo dia 6 de outubro, quinta-feira, às 20h, no Espaço Experimental Nina Mello, apresenta 18 retratos e um filme, numa investigação sobre os irreveláveis segredos de família.

A segunda mostra a integrar o Circuito Arte Fotográfica – FOTO.fr, aprovado pela Lei Murilo Mendes de Incentivo à Cultura, e patrocinado pela Funalfa, é resultado de um mergulho vivido por Camille, no cotidiano de sua família materna. Nascida na Nicarágua, aos dois anos a artista transferiu-se para o Brasil, e aos seis mudou-se, definitivamente, para a França, onde se radicou, tendo se formado na École Nationale Supérieur de la Photographie, em Arles.

Da distância geográfica à intimidade, Camille encontrou um espaço que a arte compreende muito melhor. “Esse trabalho nasceu do desejo por um trabalho mais realista. Desejo de tratar a fotografia como um elemento não apenas abstrato, mas como um possível documento”, explica a artista, num português cuja prática se deu de tempos em tempos em pequenas viagens ao Brasil no período natalino.

Muito comum na França, a expressão “ar de família” dá o tom da pesquisa, na justificativa da transcendência dos laços que envolvem parentes, ligações que vão além dos fatores genéticos. “Falo sobre o tempo. Daqui uns dez anos novas pessoas vão nascer, outras vão desaparecer. Quero continuar fotografando essa família, desejo registrar isso”, diz, para em seguida citar o artista francês Roman Opalka, que durante toda a vida fotografou a si mesmo, num trabalho artístico cujas transformações físicas serviam de metáfora para o relógio.

Longe de Rueil, uma família

Num conjunto de coincidências, Camille escolheu como título de sua mostra o nome de um livro de Raymond Queneau, um dos mais renomados escritores franceses. A publicação data do mesmo ano em que foi feita a fotografia do casamento dos avós da artista, que apropriou-se do material, numa atitude bastante frequente no universo da arte contemporânea. Ainda, Rueil é a região onde Camille escolheu morar ao mudar-se de São Paulo. “A ideia é que a vida existe longe de Rueil. E esse lugar não é um espaço pontual. É longe de onde eu estou”, comenta.

Na subjetividade de um olhar para cotidiano o grupo familiar, a fotógrafa não expõe a si, mas busca revelar a naturalidade dessas pessoas, que em meio a suas rotinas posaram para a lente da câmera. “Esse trabalho não foi feito de forma objetiva. O realismo é apenas a impressão de estar com eles. É realismo, não é a realidade”, esclarece, e logo completa: “A verdade não me interessa”, dando pistas de uma possível ficção extraída do imaginário de cada retratado.

De acordo com a video-artista e professora da escola de Arles, Muriel Toulemonde, “Camille fotografa o seu lar, o reencontro com os membros da família, num movimento, num tipo de impulso que os mantêm próximos”. A assertiva é corroborada pelo filme em que a artista acompanha o primo de seis anos durante alguns dias, numa clara referência à própria infância, visto que a idade do menino equivale a sua quando se distanciou dos parentes.

Ação: O olhar da infância

Com duração de 20 minutos e filmado em formato Mini-DV, com som direto, o trabalho reafirma a estética pura perseguida pela artista, que não se utiliza de grandes recursos e baseia-se no natural. Fortemente influenciada por cineastas realistas franceses, como Jacques Rouzier, François Truffaut, Maurice Pialat e Jean Rouch, Camille narra o cotidiano da criança, tendo como fio condutor o imaginário, que se reproduz em imagens da chuva. “A chuva é a metáfora de uma possível mudança. É um menino que está crescendo, e isso pode ser sentido sutilmente”, revela. “A chuva nos faz pensar que as coisas podem mudar. É o contato dele com o mundo externo, com o novo”, completa.

No dia 7 de outubro a fotógrafa participa de um bate-papo onde irá apresentar o filme e comentar a mostra, bem como explanar sobre suas referências e sobre o contexto de arte na França. “É uma boa oportunidade para ouvirmos uma artista que está crescendo em Paris. Camille confirma o argumento desse projeto, da força fotográfica que ainda paira na França, e, assim, oferece-nos um grato intercâmbio de ideias e emoções”, declara Nina Mello, coordenadora do Espaço e responsável pelo projeto.